
Por Mônica de Souza
A história a seguir foi contada por Emílio Surita: em Miami, nos EUA, existem canais dedicados à cobertura da previsão do tempo (isso me lembra o que o Boni disse em 1996, acho, sobre nos EUA ter um canal que passa um sismógrafo 24 horas). Foi em um deles que um apresentador chegou aparentemente preocupado: "Nós temos uma tempestade chegando das Ilhas Canárias no Atlântico, mas ela poderá chegar aqui como um tornado ou coisa pior. Seria melhor a população se precaver porque pode ser que daqui a três dias ela chegue violenta". Entram os comerciais e na volta lá está ele de novo, preocupado: "De volta com mais informações das Ilhas Canárias e... Aumentou! Parece que temos ventos mais fortes e daqui a dois dias e 72 minutos a tempestade pode chegar aqui ainda pior, então tenham muito cuidado". E a audiência dele foi subindo à medida em que as pessoas saíam pra se precaver, comprar água, comida, etc. Não é preciso dizer que a tempestade era só uma "marolinha". Uma irresponsabilidade em busca de audiência.
O desastre na boate Kiss em Santa Maria no Rio Grande do Sul foi uma amostra da situação de casas noturnas, boates e similares. Não é necessariamente uma calamidade à brasiliana, como pensam algumas pessoas, mas uma prova de como uma mistura de corrupção, ineficiência, morosidade e ganância pode resultar em uma tragédia. No entanto, a tragédia de Santa Maria revela também uma coleção de matérias pseudo-jornalísticas em que a lágrima é mais importante do que o fato, a audiência é mais importante do que a informação. Uma inutilidade pública que pouco fica a dever ao canal de Miami.
Tragédias desse tipo sempre despertam interesse social porque são uma amostra de como as coisas (não) funcionam, mas a mídia mostra se lixar para a utilidade pública, a informação e a dor de familiares que perderam seus entes queridos nessa calamidade. Repórteres enfiam microfone goela abaixo de familiares perguntando "como você se sente com isso tudo?" Como se não fosse óbvio o sentimento de dor, indignação e impotência diante de uma tragédia como essa. Só mesmo um imbecil - ou insensível - para não perceber isso.
No entanto, a dor das famílias não importa. O que interessa é o vídeo com as lágrimas dos familiares das vítimas entrando com destaque em telejornais, programas de "variedades", jornais sensacionalistas e até programas de auditório e esportivos. Espreme as lágrimas, o sangue, a revolta que uma situação assim traz porque sabe que isso valoriza o preço dos intervalos comerciais. Quem sabe as pessoas não pensam que a emissora é boazinha..?
Bom seria se eles fossem atrás de fatos. As circunstâncias da tragédia, a responsabilidade da banda, dos donos, dos bombeiros, da prefeitura e do eleitor. Seria bom que mostrasse a verdade factual sobre a situação de diversas casas noturnas Brasil afora, se estão ou não regularizadas. Seria um jornalismo de utilidade pública. Mas, como ensinaram os canais de previsão do tempo em Miami, utilidade pública não dá audiência...
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