
Por Mônica de Souza (exclusivo para a web)
Eu tenho a impressão de que os progressistas brasileiros falam fino demais. Esse é o grande problema. Na Argentina, a Cristina fala grosso. Na Venezuela tem o Chavez, na Bolívia tem o Evo, no Equador tem o Corrêa e por aí vai. Pode-se discordar muito deles - e eu costumo fazer isso -, mas que nunca se negue a coragem de ambos.
Não é o caso do Brasil. Um caso exemplar do amarelismo nativo foi o da CPI do Cachoeira. Ela estava prestes a indiciar o BFF jornalístico de Cachoeira, Policarpo Jr. Mas... Surpresa! Ele recuou antes do relatório sair oficialmente! Não dá orgulho de ser brasileiro?
É o amarelo dessa gente que permite surgir uma figura como o Coronel Telhada, nosso 10º vereador mais votado de São Paulo. Ele é daqueles que falam com os "almeidinhas" (pergunte pro Mateus Pichionelli, da Carta Capital, o que significa isso), do tipo "bandido bom é bandido morto". Escrevi sobre o assunto na BECOOL de novembro. Se a única coisa que podemos esperar do Estado são tiros e cadeia, nem esperem a redução da criminalidade.
Um repórter da Falha, digo, Folha, André Caramante, exilou-se porque estava sendo ameaçado de morte por conta de reportagens sobre a polícia. O coronel o tratou com agressividade e isso insuflou as ameaças (a relação entre as duas coisas já foi explicada por Leandro Fortes, também na Carta). Agora, Caramante está de volta ao Brasil e o coronel perdeu a linha de novo. Disse que ele é rico, aproveitou a polêmica pra tirar férias e ainda detonou as matérias sobre o assunto.
Não conheço jornalista rico. Nem os tais "subversivos petistas". Também não conheço redação que aceite que um jornalista deixe de produzir para tirar férias em outro lugar com ajuda de uma farsa. Ainda mais a Folha, que já expurgou ideologicamente muitos repórteres em sua história. Se tem alguém que delira é o coronel ao achar que a Folha está disposta a embarcar nessa.
Não vou falar sobre a questão dos direitos humanos pois já falei na revista. Me chama a atenção primeiro a histeria de certas pessoas. E depois a repercussão zero de absurdos como estes - fiquei sabendo pelo Facebook de uma jornalista que eu nem adicionei. Um comentário dizia que a ditadura deveria voltar porque a esquerda mente sobre as mortes e a tortura. "A ditadura matou pouco!", disse o arenista. Pra quem não sabe, essa tese é da Folha, segundo a qual o Brasil viveu uma "ditabranda". Mais um ponto contra o coronel. No entanto, a expressão "a ditadura matou" deveria ser condenável por si só. Se matou 400, 4 milhões ou só 4, não importa. São vidas que se foram por causa de um projeto de poder elitista. Além do mais, vale sempre frisar o que considerou o Mino: "se a ditadura matou só 400 é porque entendeu que podia parar por aí".
A democracia tem dois lados. Mas se um lado se ausenta, o outro domina e faz da democracia o que bem entender. Se o pessoal que discorda do Telhada e de seus similares não der a cara pra bater porque fica com vergonhinha de dizer o que pensa, porque fica com medinho de discordar do vizinho ou do colega de trabalho, Telhada e seus similares vão fazer o que quiserem da democracia. Vai ser "bandido bom é bandido morto" pra todo lado. Mesmo que o bandido tenha cometido apenas o crime de discordar.
(Mônica de Souza é baranga com orgulho e não tem emprego. Usa esta coluna pra falar mal dos outros).
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